merda! merda! merda! merda!
podem se passar anos e anos, eu nunca vou me acostumar com isso. cada vez que eu subo ou desço essa maldita serra uma história para contar. nunca é tranquilo, jamais poderia ser. algumas raras oportunidades tive o prazer de ter o assento ao meu lado vazio, mas sempre tinha outro incoveniente. não sou chato assim, apenas gosto de resguardar minhas opiniões, ler pacientemente meu livro ou ouvir tranquilamente um cd durante o trajeto. não quero conversar, nem supor porque com mil diabos o ônibus está parado, tão pouco discutir sobre os problemas do país ou do mundo, nada, mas nada disso me interessa durante as duas horas que separam o rio de janeiro de volta redonda. algumas vezes dura um pouco mais, mas até isso é suportável.
bem, reza lenda que pobre tem mais que se danar mesmo. nunca fui rico, algumas vezes burguês como Hermann Heese descrevera o Lobo da Estepe, que é máximo quanto me permito igualar em comparação. assim, domingo dia das mães, filas e filas nos guichês da rodoviária, vai ter mãe longe assim ô. quem fala? pelo menos a minha fica só a duas horas da civilização, vai que tem gente no outro extremo do país, enfim, se deixar nem carta chega lá. daí fico pensando uma relação do "filha da puta" com a "casa do caralho".
consigo a poltrona número 40, aquela que junto da 39, 38, 41, 42 ficam lá no fundo do ônibus, perto do banheiro, quando funciona, que sempre fede mijo - sim, é difícil mirar em determinados pontos da estrada e aí já viu mas um barro nem pensar, guarde até chegar em casa. era a última passagem do horário, vou pegar ônibus cheio ha, ha, ha. pelo menos não havia muita fila para chegar, e bem ou mal eu ia acabar viajando dormindo chapado do almoço de dia das mães. ledo engano, roncando desse jeito é capaz de ser expulso do coletivo por pertubação da moral e dos bons costumes.
por alguns breves minutos curti a possibilidade de viajar sozinho, enquanto cachorro, gato, periquito e galinha se acotovelavam pelo resto do ônibus. durou pouco, logo apareceu um desajeitado passageiro que tinha marcado o lugar 41, a janela ao meu lado, na passagem. pacientemente levanto para ceder o caminho e o desgraçado sentar:
- Não, não, pode ficar. Vou tomar um café antes ali atrás...
o ônibus executivo oferece café, água e balinhas aos favelados. quando começaram com este serviço até travesseiro e revista tinha. passou o tempo, a mulambada começou a abusar das hospitalidade e a mamata parou, sem nenhum desconto na passagem. são mais de vinte e seis contos para sair do rio de janeiro para volta redonda. parto do princípio que a gente deveria ganhar dinheiro para ir para uma cidade como esta, mas a vida é injusta e não sou eu quem dita as leis, infelizmente.
e começa meu tormento, duas horas de constantes atrevimentos e desconforto genital:
- Er, com licença...
- Sim, sim, pode sentar.
se bastasse só sentar tudo bem, mas tinha que abrir as asinhas cutucando o cotovelo no meu braço.
- Ah, desculpe...
- Tudo bem (filha da puta!)
mas tinha problema nas pernas ou então queria alguma coisa comigo porque ficava roçando joelho na minha coxa o tempo todo. TUM! eu abaixava e levantava minha perna velozmente e batia o pé no chão como quem diz:
- Porra! Sossega aí bestalhão!
finalmente consegui uma posição em que seu cotovelo não encostasse na minha barriga e nem o joelho na minha coxa. aí o filha da puta resolve cruzar as pernas. derruba meus livros e meio sem jeito volta a posição original.
- Putllllzzrghtionsleisnn... (entre dentes para demonstrar meu ódio e tendências homicidas)
ele resolve dormir, até que enfim, a paz! mas vai que ele ronca? não, o cara que ronca é o guto, quase esqueço. só de pensar nisso começo a sentir a vista cansar e o sono bater. acho que cochilei, luz acesa e a revista Veja desta semana na mão e Hall´s na boca para enganar a garganta. acorda com o próprio ronco, não ele, eu mesmo. desisto, lugar de dormir é em casa e na cama. alguns longos minutos depois relaxo, não tem jeito e reclamar só vai me aborrecer - mais um pouco passo o resto da viagem deitado no corredor, aparentemente o lugar mais confortável ali.
resumo da ópera, viajar, de ônibus para qualquer lugar, pelo tempo que for, é uma bosta. faz mais de dez anos que eu faço um percurso até pequeno e ainda não me acostumei. bom mesmo é não ter que ir, já estar lá, ou esquecer tudo, simplesmente ir, continuar reclamando como eu e relaxando, quando finalmente termina a viagem.
ir de carro?!? nem fudendo! talvez moto, quem sabe, pegar uma harley, sentir o vento na cara, descer o pé na reta e fazer aquele barulho, igual um animal feroz cheio de gasosa e fumaça pelo caminho. ah, barulho bom. vai entender!


...mas o pior estava por vir, o descabaçamento social:

de repente as pessoas finalmente perceberam que você está falando sério. aquele jeito introspectivo, ranzinza e de mal com a vida não era só um tipo engraçado que você fazia, como quem quisesse ser reconhecido, de se referirem a sua pessoa como alguém cool, cosmopolita, intelectual ou qualquer imbecilidade parecida. não, você nunca quis nada disso, era justamente o contrário. um tipo de respeito de quando um garoto se vira para seu pai e percebe estar diante da coisa mais próxima de autoridade e sabedoria que terá pelo resto da vida.
aquela velha piadinha "tá uma merda hoje e amanhã também" começa a fazer sentido se todos param de dar risinhos e olhar para sua própria situação, que de aparências, falsos elogios e outras figuras de linguagem não enchem a barriga de ninguém.
percebi isso tudo a tempo, a tempo de não entrar para este clube de que nunca vou e nem quero fazer parte. não, não está nada bom. vejo todos os dias, mal dão as costas e começam a cochichar como velhas solteironas rancorosas. não dá nem tempo da pessoa deixar de ouvir os risinhos maliciosos. é contra este tipo de coisa e outras um tanto piores que tenho evitado ser aquele cara sempre risonho, com uma piada ou sarcasmo na ponta da língua para qualquer coisa.
eu não quero ficar igual a vocês.
não vou jogar a pelada de terça porque além de não saber jogar bola eu provavelmente ia descontar toda essa raiva não na bola, mas na canela de cada um.
parei de gritar, reclamar ao vento sobre as coisas, tudo e todos, pois além de ser uma luta de Dom Quixote contra o moinho de vento, a minha energia tem que ser gasta em algo que valha a pena. sexo por exemplo.
a troco de que vou beber da cerveja, da carne e do papo furado de sexta se eu tenho isso a semana inteira, com quem eu quiser e no dia em que menos precisar. amigos? prefiro aquela turma de bêbados nos bares da vida, não essa gente que nem beber sabe ou nem ainda saiu das barras do papai e da mamãe.
vou correr na praia sozinho, não gastar tubos de dinheiro em uma academia perto do trabalho usando a minha hora de almoço e sair correndo todos os dias para não perder a hora de voltar para dentro de um container. pelo menos na praia tem água de coco, maresia, gente de verdade, sol e um pouco de poluição dos carros, tudo quase de graça.
ainda vou chegar lá, o papo de se trabalhar dentro de um container pode esperar.
essa semana mesmo vi amigos brigando por causa de uma besteira sem tamanho. aliás, isso acontece até dentro de casa, mas eu fico pensando a que ponto chega o raciocínio das pessoas ou é mesmo pura preguiça de pensar. eu não brigo mais, por nada nem ninguém, se me encheu eu deixo falando sozinho, vou embora, procuro outra mesa ou simplesmente deixo se acalmar, caso contrário teremos que discutir isso lá fora do bar:
- Se quiser pode levar sua garrafa, você vai precisar.
- Sei, sei, sei. E o garotão vai se defender com o...
um cadeirada na nuca depois tentamos voltar ao assunto que antes eu pacificamente tentava com este ser dialogar. pena que o outros dois resolveram entrar na conversa, claro que dispunham de menos argumentos que o amigo no chão, e acabou virando tudo uma grande briga de bar, até outros amigos chegarem e só mesmo as sirenes dispersaram a multidão.

isso tudo poderia ter sido evitado, acho até que todos nós evitamos situações assim mas um belo dia tanta tolerância pode ir por água a baixo.
agora pouco essa calma foi pelo ralo, uma discussão estúpida entre pessoas que se amam. sim, não é uma escolha, é fato, nós temos o hábito de machucar as pessoas que mais gostamos. bebo mais algumas latinhas, fico meio alto e resolvo brincar de "super size me". como de costume, nem mesmo de madrugada essa porcaria de franquia funciona direito. como a porcaria de sempre, jogo fora metade da coca e gelo, volto para casa mais puto e nem tão pouco aliviado, pois descontar no próprio corpo da gente as angústias do dia a dia é resumir um dia de fúria ao longo da vida. pelo que me lembro ele morre no final, mas eu achava excelente a placa do carro: defenda-se (ou algo parecido).
09:59 e mais de comentários sobre isto.





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