histórias de Ruffus, o Lenhador
Dinísio Peidão
Dionísio não era um deus grego mas sempre foi um cara muito bem apessoado. Ao contrário de sua feliz alcunha não era dado a beber muito, pelo contrário, continha seu apetite e sede na frente das pessoas de um modo geral, mantendo sua fina estirpe de distinto cavalheiro, uma qualidade herdada de geração em geração dos Vidal, uma abastada dinastia que tinha suas origens na colonização portuguesa, onde até membros da família real acrescentaram sangue nobre, o dito, sangue azul.
Nem tamanha responsabilidade lhe subia a cabeça. Era tido como alguém simples, de poucas manias e coração do tamanho de um boi. Nunca se meteu em confusão por ali. Do que se tem notícia para por aí. Era um daqueles nomes que todos conheciam mas pouco se sabia além do dia a dia.
Letrado numa das melhores instituições do país, ganhava a vida com algo parecido como pesquisa, ou coisa parecida. Trabalhava em uma empresa nova na cidade, onde menos ainda se sabia do se tratava. Um ganha pão justo, por assim dizer. O velho Ted Knock Knock não soube explicar direito, foi assim que ficamos conhecendo o tal Dionísio.
Um dia Ruffus cruzou seu caminho. Junto com aquele bando de degenerados que andava com ele pelas madrugadas de Riverville, vai saber o que com mil diabos o infeliz estava fazendo naquela esquina depois das onze.
Para resumir a história, hoje o pobre Dionísio anda jogando areia nas pessoas e rindo sem parar. Compete pau a pau rodadas e mais rodadas de conhaque com os bêbados do bar de manhã até a hora do almoço, depois volta pro trabalho trocando as pernas, fica meia hora e volta para o bar. Peidando alto e jogando a maior quantidade de insultos a qualquer um. À noite vira zumbi e suga o cérebro dos incautos pela rua.
É, a vida nunca mais foi a mesma para o pobre Dionísio depois de Ruffus, o lenhador.
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histórias de Ruffus, o Lenhador
Próximos capítulos
- CARNIFICINA NO PICADEIRO
- BACK TO IRON CITY
- SURRA NO PADEIRO
- PIRANHAS DROGADAS
- NO JESUS CHRIST AT RIVERLAND
14:41
histórias de Ruffus, o Lenhador
Tortuosa volta para casa
O velho lenhador finalmente consegue terminar o serviço que o Coronel lhe pagou. Por uma meia dúzia de barris de rum, toda aquela madeira nobre poderá ser usada na humilde cabana que irá se erguer no topo da montanha. Não é exatamente um pagamento justo, mas é melhor do que nada, afinal de contas metade vai beber mesmo o resto irá negociar com o dono da mercearia logo ali.
Cansado e com as mãos já calejadas de duas semanas de trabalho duro, Ruffus guarda suas ferramentas no porão da Casa Grande e resolve ir ter uma sincera conversa com o rico porém sovina Coronel, mais conhecido como J.F. Barro. A discussão não demora a começar e quando os capangas do Coronel entram na sala o humilde lenhador percebe que não vai conseguir mais do que pode carregar. Promete voltar em um outra hora mais oportuna e esconde a face tomada de ódio e rancor por tamanho descaso. Ignora a rapariga na sala seguinte com olhos brilhando em direção a sua face negra e barbuda. A última coisa que precisa é confusão com a primogênita de seu maior rival, mesmo que não declarado. Talvez um dia ele se vingue, mas como dizem, é um prato que se come frio.
No caminho de volta a sua choupana não se dá conta dos passantes, tão pouco dos amigos embriagados na Taverna que insistem em lhe chamar. Aquele não era mesmo um bom dia para beber. Foi aí que se esqueceu dos seis pequenos barris de rum que deixou no lado de fora da casa do coronel. Resolve voltar no lombo do cavalo manco do velho Rincon, um mexicano conhecido que lhe devia alguns favores depois daquela briga na porta do Tribunal.
Chegando lá, encontrou dois dos capangas daquele imbecil bebendo e rindo, como se ele fosse o maior idiota de todos os tempos. Com o cabo do machado rachou a cabeça de um e o outro apenas com o nariz quebrado deixou só para contar a história. Saiu de lá com respeito, afinal J.F. Barros não ia manchar sua reputação por uma simples briga no seu quintal. O capataz que morreu era um molóide mesmo e o outro lhe roubava. No final Ruffus acabou lhe fazendo um grande favor.
Devolveu o alazão ao mexicano e foi carregando nos ombros a mercadoria. Dois transeuntes vinham na sua direção. Quando percebeu era apenas dois guris, não deviam ter nem pentelhos nos colhões. Um era negro e bem forte, outro era meio mulato mais baixo e ria alto como peão em dia de pagamento. Iam na sua direção, e como Ruffus nunca foi lá muito de dar passagem para ninguém, foi justamente no peito do negrão que esbarrou, quase derrubando o infeliz na poça de lama depois daquela chuva na noite anterior. Não olhou para trás, mas sabia que alguém lhe praguejava. Talvez um dia se encontrassem de novo, mas este era o menor dos seus problemas agora.
Chegando na porta de casa com um barril a menos, sua senhora lhe esperava. A cara amarrada já precedia o esporro, mas como não sentiu cheiro de bebida na sua boca e o punho ensanguentado mais um sorriso no canto da rosto lhe calou. Ruffus largou o material ao lado da cama, o lugar mais seguro da casa, pois é exatamente no lado onde dorme. Lavou a cara e comeu o pedaço de cabrito que sobrou do almoço do final de semana. Gina, sua esposa, não estava bem. Também teve lá seus próprios problemas e queria conversar, mas viu que seu marido não estava lá de muito ouvidos e resolveu deixar para depois. Quando fica muito quieto ou é porque está a ponto de matar alguém ou já matou. Só duas coisas podem acalmá-lo: matar o cabra ou ir trepar a noite inteira. Felizmente os lençóis daquela casa nunca duravam mais de duas noites e ontem não fora trocados. Fora dormir cheia de porra e rum.
02:52
MATANZA
Ontem foi foda. Rafael, Mari, TT e eu na Lapa para assistir ao Matanza
e Ratos de Porão no Circo Voador. Pouca fila para comprar e as mesmas
caras do meal de sempre. Com poucos trocados no bolso resolvemos beber
o suficiente fora para não morrer em R$4 dentro da casa, um absurdo,
mesmo para os padrões noturnos de esbórnia. Paramos em um bar ali em
frente ao Odisséia que não vou lembrar o nome nem fudendo para engolir
algo antes de vomitar. Uma porção de bolinho de bacalhau, caldo de
feijão, frango a passarinho e 17, apenas 17 que vergonha, choppes por
uns oitenta mangos. Da próxima vez encaro um feijão em casa mesmo
porque o meu salário milionário não cobre ser roubado na rua por
comerciantes oportunistas que descaracterizaram completamente o
conceito de bar nesta cidade.
Algumas garrafas depois, já na frente do Circo, uma fila se forma
enquanto Ratos e depois Matanza passam o som. Show marcado para as
22h. É claro que atrasou. Mais algumas garrafas e participações
especiais de pessoas mais sequeladas que a gente finalmente entramos.
Matanza entra logo no palco e começa a socar a porta dos nossos
tímpanos com a velharia e algumas do disco novo. Teria sido perfeito
não fosse a merda do som. Já ouvimos pior e pagando, então foda-se.
Jimmy London possuído e Donida primoso como sempre. Desta vez resolvi
assistir mesmo o Matanza, e não ir para a roda. Mas bastou AS MELHORES
PUTAS DO ALABAMA dar os primeiros acordes que larguei Teresa e Mari e
fomos para a pista e de lá nunca mais saí. Sim, somos sócios do CLUBE
DOS CANALHAS, mas a carteirinha de número 001 pertence a Jimmy London.
ELA ROUBOU MEU CAMINHÃO termina o set sem direito a biz nem nada. Uma
pena, não fosse a gravação do DVD do R.D.P. teria sido bem melhor esta
apresentação. Por falar nisto, será que vai rolar mosh depois? Sim, de
fato aconteceu, mas só nas primeiras músicas, até o João Gordo ralhar
com a turma soltando a porra do cabo do baixo o tempo todo. Justamente
nesta hora meu amigo Rafael tentava subir.
Confesso que não sei ouvi nenhuma música do disco novo. O último disco
do Ratos que coprei foram as coletâneas FEIJOADA ACIDENTE, que agora
pouco tentava ouvir na comodiadade de meu humilde lar. Bem, eu tentei.
Definitivamente ouvir Hardcore com fones de ouvido não tem a menor
graça.
A pista estava ótima, quem não tem culhão fica do lado de fora mesmo,
porque aqui só os mais fortes sobrevivem. BEBER ATÉ MORRER e ASCENÇÃO
E QUEDA foram mais do que suficientes para largar a porra da máquina e ir
para dentro da porradaria. No meio daquela zona encontro um amigo do
Rio Rugby. Bom. Mas João Gordo estava mais pela saco do que de costume,
então o show foi curto, metódico e infinitesimalmente inferior ao que
já vi outrora.
Fim de festa, Mari e Rafael para casa exaustos e felizes da vida. Até
que enfim fui num show com um eles, afinal melhor bater cabeça que
ficar discuntindo as influências do Olho Seco, Cólera e Inocentes na
história marginal do punk brasileiro.
Minha Teresa e eu fomos pro Sinuca da Lapa, tomamos umas três cervejas,
duas partidas de sinuca e depois o viado do Madruga finalmente
apareceu. Uma dona doida e amiga mais cheia de cana que a gente pediu
nosso telefones. Pessoas estranhas perguntavam se tínhamos ido no Zeca?
- Não, a gente estava no Circo Voador.
- Quem estava tocando lá?
- Ratos e Matanza.
- Aah...
Um negão do tamanho da geladeira aqui de casa beijou a mão da Teresa.
Eu chamei o cara para jogar rugby comigo e deis os nossos telefones
para a Dona, que deposi concluimos ser esposa de algum bicheiro, porque
percebemos alguém armado e vários"empregados" como ela disse, do marido
dela. Marcaram conosco no Heavy Dutch semana que vem.
Um senhor que catava garrafas do lado de fora do bar tentou nos ensinar
o que era vida. Arrotei e chamei um táxi, a aquela altura da madrugada
a última coisa que precisávamos era alguém me ensinando como nos
divertir. Meu dia perfeito foi assim, puta show de uma das duas bandas
que mais gosto, amigos, cerveja bem gelada, minha muié, porradaria na
pista, sinuca, um prato de feijão quando cheguei da Lapa e uma bela
cagada antes de dormir. Só faltou um rodízio de carne e cachaça depois
de uma partida de rugby, mas nada nesta vida é 100%, mas ontem chegamos
de 74,9% disto. Ah, chegamos!
22:31
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